Saturday, May 31, 2008
e me sangram raios de luz pelos olhos
escorro pra dentro da escuridão
acendendo brilhos pelas montanhas
feito um vagalume bêbado
inconsequente espalho indecisões
indefinível meu vagar no espelho
reflito o caos na face
devoro enigmas pela orelha
despregadas de mim estão minhas asas
meu vôo tem vontade própria
alheio a todos os meus abismos
desapareço em precipício
g.q.
Friday, May 30, 2008

que bicho me deu?
eu queria ter a liberdade de um bicho preguiça subindo na árvore com o filhote agarrado no colo
queria essa liberdade agarrada, aconchegada, lenta e macia
não quero medir liberdade em tamanho das asas, altitude do vôo, no canto triste de um pássaro solitário que risca o horizonte
não quero a liberdade assim ao longe
quero antes a liberdade dos macacos catando piolhos nos outros
a liberdade dos vira-latas que acasalam nas ruas e cheiram-se os rabos despreocupados
eu quero a liberdade dos pombos que se reproduzem nas praças não se sabe como (ninguém jamais viu filhote de pombo!)
eu quero a liberdade dos coletivos dos bichos
colméias, cardumes, manadas
juntos por instinto de sobrevivência e mais nada
a liberdade não é sozinha
a liberdade é
o ser livre não se pensa livre
é
e eu, que tanto me penso livre
e não sou
quero voltar ao meu estado bicho
meu grito é o cio de um gato selvagem
o uivo de um lobo que sempre se cruza com outro
como o canto de um galo
uns que tecem noites
outros, as manhãs
e o cio do gato que tece o desejo por outro gato
gatos também choram?
sei que até os leões sangram, que todo animal tem medo
mas bicho reage, não reza
bicho até foge
só não fica parado
só bicho-homem se deixa ser massacrado
animal racional?
eu não, eu quero a irracionalidade, o instinto, a mais pura liberdade
eu quero o veneno da cobra pra me defender
enquanto os homens se envenenam a si mesmos e vagam mortos de olhos abertos
eu não me deixo tão fácil abater
antes de tudo,
eu quero viver
beatriz provasi

a palavra arde
o sangue esquenta nas veias abertas
do céu que escorre pra dentro da jaula
o desejo inerte paralisa o instante
dos que esperam por algo chamado liberdade
travestido de justiça
armados de pretenciosa audácia
adentramos o inferno
encaramos o demônio
e vomitamos nossos medos pelo chão sujo
e fizemos brotar flores pelos cantos húmidos
borboletas do musgo
pássaros apareceram atravessando as paredes
e soprando canções pelas frestas
acordando a surdez do presente insano
e acendendo na escuridão dos sentimentos
apodrecidos pela esperança estagnada
as cores dos versos banhados em lágrimas
olhei nos olhos de meus fantasmas
e encarei de frente
minha própria farsa hipócrita
de ser um livre cidadão
seríamos qualquer um de nós mais livres
que aqueles que ali estavam?
como disse um deles,
"a pior prisão é a da própria mente"
seria eu mais ou menos criminoso
que qualquer um daqueles espíritos trancados?
não sou mais isso, nem menos aquilo
somos todos parte do mesmo crime perfeito
planejado pelas mesmas tramas de um Deus
que assiste a tudo do alto
sem entender o que foi que deu errado
adentramos o inferno
com a única arma que nós tínhamos
nossa arte
olhei nos olhos de meus demônios
e tive medo
de mim mesmo
poesia
livrai-me de todo mal.
g.q.
(poema escrito após a visita dos Voluntários a carceragem de Nova Iguaçú)
ELE DISSE, ELA DISSE
DECODIFICAÇÃO DA MENSAGEM
É TUDO MENTIRA
É TUDO VERDADE
ACREDITE QUEM QUISER
E DESMINTA SE PUDER
PROVE O CONTRÁRIO
ATIRE NO ÓBVIO
ATINJA NO ALVO
DO QUE NÃO FOI DITO
PRA QUE FIQUE VIVO
SANGRANDO NAS ENTRELINHAS
O ESCRACHO
O ESCARRO
O ESCATOLÓGICO SENTIDO
DO TROCADILHO
BEM COLOCADO
FAÇA O DITO
DIGA O ATO
PESQUE PALAVRAS NUM AQUÁRIO
BENDITO SEJA
O PRIVILÉGIO DA INCERTEZA
SE A VERDADE ESTÁ NA MESA
DEVORE-A
SEM MEDO
MENTIRA
MATA DE FOME.
G.Q.